O Brasil levou ao encontro dos países do BRICS a proposta do Brics Pay, uma plataforma pensada para conectar sistemas nacionais e viabilizar transferências diretas entre moedas locais — no modelo de pagamentos instantâneos, inspirado em arranjos como o Pix. A justificativa é clara: reduzir a intermediação do dólar e a dependência do Swift, sistema global com forte influência dos Estados Unidos.
Especialistas ouvidos analisam que a iniciativa tem evidente componente geopolítico. Para defensores, como Thiago Godoy, a ferramenta simplificaria operações dentro do bloco, permitindo, por exemplo, que comércio bilateral seja liquidado entre real e yuan sem conversão obrigatória para dólar. Marilia Fontes destaca que a busca por alternativas também responde ao risco de sanções e bloqueios que podem interromper cadeias de pagamento.
Apesar do argumento legítimo, há limites práticos: a dominância do dólar em faturamento internacional, a necessidade de liquidez em moedas locais para garantir compensação e a complexidade de integrar regras de compliance, AML e regulação cambial entre jurisdições distintas. Bernardo Pascowitch lembra a diferença entre acordos comerciais e a criação de um sistema de pagamentos interoperável — especialmente sobre quem teria visibilidade e controle sobre transações e dados de pessoas físicas.
Do ponto de vista institucional, o projeto exige cooperação ampla de bancos centrais, infraestrutura de liquidação e mecanismos para mitigar risco cambial e de liquidez. No plano político, o Brics Pay sinaliza ambição por mais autonomia financeira, mas é pouco provável que cause uma mudança brusca no padrão internacional no curto prazo. Para avançar, o governo terá de apresentar roteiro técnico e de governança claro, calibrando expectativas entre ganho geopolítico e desafios operacionais e regulatórios.