Quando um investidor com a trajetória de Warren Buffett volta a dedicar espaço de entrevistas para apontar a mudança de comportamento do mercado, o sinal merece atenção. Aos 95 anos, Buffett voltou a criticar o que vê como preferência crescente por operações de aposta e ressaltou que o ambiente de investimentos tem se transformado por práticas de curtíssimo prazo.
Os números reforçam o tom do alerta. Relatório da FINRA mostrou que a dívida de margem nos Estados Unidos bateu novo recorde em maio de 2026: alta de 8,5% sobre abril e crescimento de 53,7% em 12 meses (47,4% ajustado pela inflação). O saldo líquido das contas de margem chegou a aproximadamente -US$ 991 bilhões, o que indica que investidores devem hoje quase um trilhão de dólares a mais do que possuem em caixa.
A operação com margem amplia ganhos e perdas: em quedas, as corretoras podem exigir aportes imediatos (margin calls), forçando vendas que amplificam a pressão vendedora. Historicamente, picos de margin debt surgiram próximos a topos do S&P 500 — em março de 2000, julho de 2007 e em outubro de 2021 — episódios que antecederam correções severas nos mercados.
Do ponto de vista jornalístico e de mercado, a combinação entre alavancagem recorde e a expansão de instrumentos especulativos aumenta a probabilidade de movimentos violentos e corrobora a crítica de que parte do mercado funciona mais como aposta do que como investimento. Há, contudo, a ressalva estatística de que a série histórica tem poucos episódios significativos, o que limita o poder preditivo do indicador. Ainda assim, o recado para investidores e supervisores é de prudência: monitorar exposição, exigir maior transparência e preparar mecanismos para conter efeitos sistêmicos.