Aos 96 anos, Warren Buffett deixou a presidência do conselho da Berkshire Hathaway na sexta-feira (18), encerrando seis décadas em que transformou a holding numa máquina de valor baseada em negócios que entende. A estratégia do 'Oráculo de Omaha' — privilégio por empresas rotineiras e de margem previsível — rendeu agora um efeito colateral lucrativo: exposição à inteligência artificial sem apostar diretamente nos vencedores da tecnologia.

Em vez de concentrar recursos em startups de IA ou em grandes apostas tecnológicas, a Berkshire manteve posições em setores da economia real: seguradoras, ferrovias, utilities e fabricantes de componentes industriais. Algumas dessas empresas — como a Apple, cuja participação começou em 2016, e a recente aquisição anunciada em Alphabet — ligaram a holding à revolução digital. Mas foi a infraestrutura energética que impulsionou ganhos mais consistentes.

A compra da MidAmerican Energy, em 2000, e aquisições industriais posteriores, como a Precision Castparts, colocaram a Berkshire num lugar estratégico quando a demanda por energia disparou com a expansão de data centers. Greg Abel, sucessor de Buffett como CEO, disse em maio que 8% da carga energética da Berkshire na região veio de data centers no ano passado, explicando parte do desempenho operacional das empresas controladas.

O caso serve como lição para investidores e gestores públicos: nem toda revolução tecnológica exige corpo a corpo com as novas plataformas para gerar retorno. Empresas que fornecem os insumos — eletricidade, componentes para geração e infraestrutura logística — podem Capturar grande parte do valor criado pela IA, com menos risco de escolher o 'campeão' errado. Para a equipe que agora lidera a Berkshire, o desafio será manter essa disciplina e transformar essa vantagem circunstancial em estratégia deliberada.

Politicamente neutro, o movimento também tem implicações para mercados e reguladores: maior demanda por energia pressiona capacidade instalada e condiciona debates sobre regulação, tarifas e investimento em rede. A aposta conservadora de Buffett não é glamourosa, mas, diante do custo e da escala exigidos pela IA, revela-se eficaz — um lembrete de que, muitas vezes, o lucro vem das coisas que mantêm a economia funcionando.