Os dados do Caged divulgados nesta sexta-feira confirmam uma desaceleração clara do mercado de trabalho: foram abertas apenas 58.500 vagas formais em julho, número bem inferior à projeção de 112 mil apontada por pesquisa da Reuters. É o menor saldo para o mês desde 2020 e o pior desempenho do ano de 2026, reforçando que a retomada do emprego perdeu força no início do segundo semestre.
A analista Lucinda Pinto ressalta que o país segue criando postos, mas a um ritmo muito mais lento: em julho foram geradas menos da metade das vagas observadas em junho. Apesar da volatilidade inerente ao Caged, a tendência de desaceleração aparece 'bem desenhada', com revisões em curso nas projeções de crescimento do PIB e expectativa de números piores a partir do terceiro trimestre.
O recuo tem implicações práticas: setores como o comércio sentem o efeito das taxas de juros mais altas — que encarecem financiamentos — e dos consumidores mais endividados. Além disso, fatores estruturais reduzem a demanda por mão de obra no varejo, como a migração para o e-commerce e, segundo especialistas, o crescimento das apostas que competem pelo gasto das famílias.
As leituras do Caged também influenciam a trajetória da política monetária. Alguns analistas já ajustaram previsões da Selic — a XP, por exemplo, revisou suas estimativas para 13,25% — o que evidencia tensão entre a necessidade de conter a inflação e o impacto de juros elevados sobre atividade e emprego. Na semana seguinte à divulgação, o IBGE deve liberar o PIB do 2º trimestre, número que será decisivo para calibrar cenários e testar a resistência da narrativa oficial sobre recuperação econômica.