As captações no mercado de capitais doméstico somaram R$ 180,1 bilhões no primeiro trimestre de 2026, alta de 15,7% na comparação anual, segundo dados divulgados pela Anbima. O resultado recorde foi impulsionado pela volta das ofertas de ações e por forte expansão dos instrumentos híbridos, que redistribuíram o volume entre os diferentes tipos de emissão.
No detalhamento por segmento, a renda fixa registrou R$ 143,5 bilhões entre janeiro e março, queda discreta de 0,8% ante igual período de 2025. Os instrumentos híbridos — que incluem fundos imobiliários e Fiagros — tiveram salto de 138%, chegando a R$ 23,4 bilhões. As ofertas de ações somaram R$ 13,2 bilhões, já equivalendo a 85% de todo o volume de 2025, quando o primeiro trimestre havia registrado apenas R$ 1,2 bilhão.
Foi um trimestre um pouco diferente, com mudança de mix, mas foi forte
As debêntures, que vinham sustentando recordes recentes, apresentaram movimento lateral: o volume caiu para R$ 99,3 bilhões ante R$ 103,4 bilhões no 1º tri de 2025, embora o número de ofertas tenha aumentado (153 contra 127). Dentro do segmento, os títulos incentivados para infraestrutura ganharam peso — 43,8% do total — bem acima das médias de 2023 e 2024, sinalizando maior direcionamento do mercado para projetos com benefícios fiscais ou garantias específicas.
No exterior, as captações somaram US$ 8,7 bilhões no trimestre, abaixo dos US$ 12 bilhões de 2025; o Tesouro foi protagonista, com US$ 4,5 bilhões e uma oferta recente de 5 bilhões de euros. A volta das ações e o crescimento dos híbridos mostram retomada do apetite por risco, mas a queda do ticket médio nas debêntures levanta questão sobre profundidade de mercado. Como observa Guilherme Maranhão, da Anbima: "Foi um trimestre um pouco diferente, com mudança de mix, mas foi forte."
Do ponto de vista político-econômico, o resultado oferece sinais mistos: por um lado amplia opções de financiamento para empresas e para projetos de infraestrutura; por outro, revela maior seletividade de investidores e dependência de fatores de confiança externa. A manutenção da trajetória — e a capacidade do governo de sustentar acesso ao mercado externo — dependerá de disciplina fiscal e de estabilidade nas condições macro, sem as quais emissões, especialmente de novos entrantes, podem enfrentar escrutínio e custo mais alto.