O mercado de benefícios corporativos, estimado em cerca de R$150 bilhões por ano e presente para mais de 20 milhões de brasileiros, passa por alteração estrutural com a adoção crescente de cartões flexíveis. Esses cartões concentram em um só instrumento diferentes categorias — mobilidade, refeição, alimentação e sazonais — e, segundo executivos do setor, tendem a substituir cartões segmentados. A digitalização promete maior conveniência para o trabalhador e maior eficiência para o empregador, mas também altera a cadeia de custos e de aceitação nos pontos de venda.
Os sinais de mudança já aparecem nos números: um recorte da base de usuários de uma operadora aponta que a procura pelo vale‑Natal subiu 56% em 2023, dobrou em 2024 e avançou mais 23% em 2025, com gasto médio por usuário em torno de R$330. Esse movimento desloca consumo de cestas físicas para saldo digital, tornando a oferta mais personalizável — e sujeita a regras que delimitam o uso desses créditos à compra de alimentos quando substituem benefícios previstos pelo PAT.
A transformação tem face regulatória. As novas regras do Programa de Alimentação do Trabalhador reduziram o prazo de repasse de recursos de 30 para até 15 dias e limitaram a cobrança de taxas por estabelecimentos, que chegavam a 8% e agora têm teto de 3,6%. A interoperabilidade também foi ampliada: beneficiários podem usar cartões flexíveis em locais que aceitem bandeiras tradicionais, o que alivia a necessidade de contratos individuais por restaurante. Proprietários e associações do setor vêm relatando redução de pressão sobre o fluxo de caixa, antes agravado por prazos longos que obrigavam antecipação de recebíveis com custo.
Para empresas e operadoras, as novas regras nivelam o ambiente e abrem espaço à concorrência, mas exigem investimentos em compliance e controles de categorização. Especialistas apontam risco jurídico quando saldos livres são usados fora da finalidade definida — se valores forem destinados a pagamentos não alimentícios, pode haver questionamento sobre natureza salarial. Em suma: o mercado se moderniza e cria oportunidades, mas também impõe escolhas estratégicas para RH, riscos regulatórios e pressão por eficiência nas margens das bandeiras e estabelecimentos. A dinâmica deverá redesenhar quem lucra com benefícios e como as empresas balanceiam custos e atração de talentos.