A decisão da Casas Bahia de pedir recuperação judicial — com o fechamento de 298 lojas — revelou uma crise que vai além do dilema de uma única marca. Para Claudio Damasceno, sócio da consultoria RGF Bizdoc, o setor enfrenta uma transformação estrutural: empresas que investiram em gestão, tecnologia e desalavancagem atravessam melhor a turbulência; as que chegaram descapitalizadas e altamente endividadas enfrentam problemas graves.

Na avaliação do especialista, a combinação de competição internacional com oferta de produtos mais baratos e uma economia doméstica onerosa agrava o quadro. A revogação de tributos que beneficiou bens de consumo acessíveis intensificou a concorrência externa, enquanto o custo do capital elevado — alimentado, segundo ele, por falta de controle do gasto público — penaliza varejistas que dependem de crédito caro para financiar estoque e expansão.

Damasceno atribui parte da crise a problemas societários acumulados ao longo de mais de 15 anos, que teriam retardado a adaptação às disrupções tecnológicas. A recuperação extrajudicial de 2024 não resolveu as fragilidades da empresa, e o pedido de recuperação judicial em 2026, ainda não homologado, aparece como um fôlego necessário, mas insuficiente sem mudanças profundas na estrutura de capital e na governança.

Das prioridades apontadas, três têm impacto direto na viabilidade do varejo: reduzir o custo do crédito por meio de disciplina fiscal; formular políticas de médio e longo prazo para setores estratégicos; e aplicar estímulos direcionados — incluindo investimentos em logística, crédito diferenciado e políticas educacionais para elevar produtividade. No curto prazo, a falta de respostas convergentes do poder público aumenta o risco de perdas de empregos, pressão sobre fornecedores e deterioração da confiança do mercado.