A remoção de Vishal Garg do cargo de CEO da Better Home & Finance, anunciada depois de uma disputa interna com o investidor Daniel Lewis, ilumina fragilidades que já vinham corroendo a empresa. Garg, que ganhou notoriedade global ao demitir 900 funcionários por videoconferência em 2021, deixa o posto em 3 de agosto quando afirmava estar perto de reverter o quadro. A história da Better desde o boom do refinanciamento é marcada por altos e baixos — avaliação de US$8 bilhões na época de juros baixos e um recuo dramático até cerca de US$300 milhões hoje.
A trajetória explica parte do conflito: o negócio principal de refinanciamento entrou em colapso com a elevação das taxas, e a receita anual caiu de US$1,5 bilhão em 2021 para apenas US$70 milhões em 2023. Garg sustenta que a empresa retomou fôlego ao treinar modelos de IA para acelerar o processamento de hipotecas e ao fechar parcerias — citadas por ele — com players como Intuit, Coinbase e OpenAI, além de um acordo com a Neo Home Loans que, segundo o ex-CEO, teria dobrado produtividade e reduzido custos de originação em 50%. Mesmo assim, a provisão de resultados consistentes e a trajetória até a lucratividade permaneceram incertas.
No plano societário, a substituição de Garg por Lewis expõe questões de governança. Lewis entrou no conselho no fim de julho após elogios públicos à estratégia da empresa, e uma semana depois convenceu diretores a destituir o fundador. Para analistas e investidores, a mudança levanta dúvidas sobre transparência nos processos internos e sobre o custo político de uma troca abrupta à beira de uma recuperação anunciada. A companhia também arrasta histórico de problemas: fusão via SPAC em 2023 que derrubou ações 93%, investigação da SEC sem desfecho e litígio interno que chegou a ser estrelado por um denunciante.
O episódio tem impacto claro para o mercado: além do apreço por governança mais robusta, acionistas e parceiros avaliarão agora se a nova gestão terá visão operacional e paciência para consolidar ganhos em IA e linhas de crédito imobiliário. A saída de Garg funciona como um teste para a capacidade do conselho de equilibrar cobrança por eficiência e custo reputacional. Se a promessa de aumento de receitas para cerca de US$200 milhões neste ano se confirmar, a tensão interna pode ser justificada; se as expectativas não se materializarem, a troca tende a ampliar a desconfiança e a pressionar ainda mais a já fragilizada avaliação da empresa.