A China pediu nesta segunda (10) para ingressar nas consultas que o Brasil abriu na Organização Mundial do Comércio contra as tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros. Anunciadas em julho, as medidas — fruto de duas investigações iniciadas pelo USTR com base na Seção 301 — resultaram em sobretaxas de 25% e 12,5%, que, se somadas, podem chegar a 37,5%.
O pedido chinês, noticiado pela imprensa e confirmado por fontes no Brasil, justifica-se por um “interesse comercial substancial”: as novas tarifas americanas afetam também as condições de concorrência para bens chineses no mercado dos EUA e podem levar Washington a aplicar medidas sobre produtos da China. A presença chinesa muda o quadro técnico e político da disputa bilateral, tornando-a mais claramente multilateral.
O Itamaraty havia fundamentado a reclamação brasileira no princípio da nação mais favorecida e na alegação de incompatibilidade das medidas com várias obrigações do GATT. Os EUA aceitaram as consultas, etapa que precede um pedido de painel após 60 dias se não houver acordo. Na prática, porém, a eficácia do caminho na OMC é limitada: o órgão de apelação segue paralisado desde 2019, o que reduz a velocidade e a previsibilidade de uma solução jurídica definitiva.
Do ponto de vista político e econômico, a adesão da China eleva a pressão sobre Washington e amplia o custo geopolítico das sobretaxas. Para o governo brasileiro, o recurso a Genebra permanece necessário para marcar posição e proteger exportadores; mas a estratégia tem caráter em grande parte simbólico enquanto o sistema multilateral estiver enfraquecido. A alternativa mais realista passa por combinar a via jurídica com negociações diplomáticas visando mitigar prejuízos imediatos às cadeias exportadoras.