Brasília, DF – A forte queda do mercado brasileiro após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva turvou a expectativa por juros mais baixos e colocou o Banco Central diante do dilema entre conter pressões inflacionárias e aliviar o custo do crédito. O Copom inicia reuniões nesta terça; a decisão sai na quarta-feira e será o primeiro teste para recalibrar a trajetória da Selic.

A taxa básica está em 13,75% e vinha sendo reduzida em 25 pontos-base nas cinco reuniões anteriores. Uma pesquisa da Reuters mostrou que 33 dos 48 economistas consultados esperam manutenção desse patamar, e a mediana das previsões indica estabilidade até o segundo trimestre de 2027. Para Carlos Carranza, gestor de dívida da M&G, o tom do BC será mais relevante que um corte pontual: "Quer reduzam em 25 (pontos-base) ou mantenham as taxas inalteradas, acho que a mensagem será ainda mais importante do que a própria taxa de juros".

Quer reduzam em 25 (pontos-base) ou mantenham as taxas inalteradas, acho que a mensagem será ainda mais importante do que a própria taxa de juros

Analistas destacam também os sinais dos mercados: na semana passada o real perdeu 8,5% frente ao dólar e o índice Bovespa recuou cerca de 18%. Do lado macro, a inflação acumulada em 12 meses até meados de outubro estava em 4,62%, o gasto do governo com juros alcançou 9% do PIB até setembro e a dívida das famílias chegou a 50,1% da renda anual, com pagamentos consumindo 29% da renda, segundo dados do BC.

O temor é que uma incapacidade de convencer investidores sobre a solidez das contas públicas mantenha o crédito caro e reduza espaço para apoio ao crescimento. Petar Atanasov vê margem para ajuste fiscal sob o novo governo, mas espera ritmo mais lento do que o previsto por mercados; Antonina Tarassiouk prevê uma pausa e ressalta a gravidade do cenário se o petróleo seguir acima de US$100 o barril. "Revisões para baixo em uma previsão de crescimento já fraca para 2027 serão fundamentais para que o BC retome sua postura de flexibilização". Nos próximos dias, investidores vão procurar sinais nas comunicações do BC, nas nomeações econômicas do governo e em qualquer proposta concreta de ajuste fiscal.