A continuidade do conflito no Oriente Médio forçou o mercado a refazer expectativas macroeconômicas. Bancos e o boletim Focus elevaram projeções para a inflação em 2026, em um sinal claro de que o choque do petróleo deixou de ser transitório. A leitura predominante é que preços mais altos do Brent pressionam custos internos, desde combustíveis até frete e insumos agrícolas.
No conjunto das revisões, o Santander subiu sua projeção para o IPCA de 2026 e agora trabalha com uma estimativa sensivelmente acima da meta originalmente esperada, ao mesmo tempo em que recalculou o fim do ciclo de cortes da Selic para um patamar superior ao anterior. Outras instituições, como Morgan Stanley e Goldman Sachs, também vêm destacando o risco de um petróleo mantido em níveis próximos a US$90 por barril e o impacto disso sobre a trajetória de juros.
O Banco Central já havia sinalizado preocupação com efeitos de segunda ordem decorrentes de restrições de oferta de petróleo quando cortou a Selic em 0,25 ponto na última reunião do Copom. A inflação mais persistente e um mercado de trabalho apertado ampliam a necessidade de uma Selic mais elevada por mais tempo, o que pressiona o custo da dívida e complica a agenda de responsabilidade fiscal do governo.
Além do efeito direto sobre preços, analistas lembram que a duração do choque aumenta a chance de repasse a preços administrados e de medidas fiscais pontuais, elevando incertezas. No campo agrícola, o encarecimento de fertilizantes e frete reforça o impacto no custo dos alimentos. Para autoridades e formuladores, o desafio agora é conciliar reação monetária mais dura com a necessidade de proteger o equilíbrio fiscal e evitar desgaste adicional na percepção do mercado.