Renato Meirelles, do Instituto Locomotiva, defende que a transformação mais significativa na chamada classe C não está apenas no consumo, mas na redefinição do que significa ter uma vida digna: a possibilidade de dispor do próprio tempo. Em entrevista ao programa WW Especial, Meirelles afirmou que, embora aspirações por bens e melhoria de padrão persistam, a prioridade hoje é conciliar trabalho, renda e vida pessoal — uma mudança que orienta escolhas laborais e de consumo.
O movimento explica a expansão de diferentes formas de geração de renda, em especial o que se chama de economia por plataformas. Não se trata apenas de profissionais digitais: há boleiras, costureiros e pequenos fabricantes que usam marketplaces e redes sociais para ampliar alcance e flexibilidade. Para muitos, a decisão de empreender ou migrar para trabalho por aplicativo tem menos a ver com glamour do empreendedorismo e mais com buscar autonomia diante de deslocamentos longos, jornadas extensas e renda muitas vezes insuficiente.
Do ponto de vista econômico e político, essa tendência traz efeitos concretos. A difusão de trabalhos informais organizados por plataformas pressiona por regras laborais mais flexíveis e ao mesmo tempo suscita debate sobre proteção social. Propostas que alterem jornadas, como a discussão sobre a 6x1, conectam-se a esse zeitgeist: políticas de horário e descanso passam a ser vistas como instrumentos de dignidade, não apenas de custo empresarial. Para formuladores, o desafio é equilibrar liberdade e segurança sem gerar mais informalidade ou precarização.
O sinal enviado pela classe C tem impacto também no mercado: empresas e serviços que oferecerem mais flexibilidade e opções para conciliar tempo e renda tendem a ganhar espaço. Para o campo público, a mudança exige políticas integradas — transporte, educação e regulação do trabalho em plataformas — que deem substância à ideia de dignidade apontada por Meirelles. Em resumo, a busca por ser dono do próprio tempo redesenha demandas sociais e impõe escolhas para governos, empregadores e legisladores.