O Brasil alcançou um novo patamar de inadimplência empresarial: quase 9 milhões de CNPJs negativados, com dívidas que somam R$213 bilhões, segundo levantamento da Serasa Experian. O aspecto mais preocupante é a composição desse universo: mais de 90% dos registros são de pequenas e médias empresas, segmentos tradicionalmente mais vulneráveis ao aperto de crédito e às oscilações de demanda.

A consequência imediata é óbvia: PMEs recorrem a linhas mais caras e tomam decisões financeiras inadequadas na tentativa de manter operações. O desalinhamento entre prazos de receitas e de financiamentos — usar empréstimos de curtíssimo prazo para investimentos de longo prazo, por exemplo — cria um ciclo de fragilidade que tende a agravar a inadimplência e a reduzir a capacidade de sobrevivência dessas empresas.

No campo das soluções, a antecipação de recebíveis aparece como alternativa prática, oferecendo taxas comparativamente mais baixas quando estruturada corretamente. A novidade regulatória apontada para este ano, a duplicata escritural, promete facilitar a certificação digital de créditos a receber, reduzindo fricções e dando mais segurança às instituições que antecipam esses valores. O mercado atual de antecipação movimenta cerca de R$1 trilhão por ano; estimativas citadas no setor projetam potencial de expansão substancial, ainda que isso dependa de adoção ampla e de ajustes operacionais.

Apesar do potencial técnico dessas ferramentas, elas não substituem a necessidade de políticas públicas e práticas empresariais que tratem a raiz do problema: educação financeira empresarial, melhores produtos bancários para PMEs, e incentivos à formalização de fluxos de caixa. Do ponto de vista fiscal e social, a persistência desse patamar de inadimplência pode reduzir a geração de emprego e pressionar arrecadação, além de elevar o custo do crédito para toda a cadeia produtiva. A duplicata escritural e a antecipação de recebíveis podem aliviar o aperto, mas serão suficientes apenas se acompanhadas de mudanças estruturais no mercado de crédito e na gestão das próprias empresas.