A compra da mineradora brasileira Serra Verde pela norte-americana USA Rare Earth, anunciada por US$ 2,8 bilhões, representa uma entrada relevante de capital no ativo de terras raras em Goiás. Segundo o presidente da Serra Verde Pesquisa e Mineração, Ricardo Grossi, o negócio deve abrir recursos para acelerar pesquisas e viabilizar uma segunda fase de expansão que poderia dobrar a produção inicialmente prevista.

A Serra Verde iniciou a produção comercial em 2024 e projeta alcançar capacidade nominal de 6.400 toneladas anuais de óxidos de terras raras até 2027, com vida útil estimada em mais de 20 anos. A empresa produz atualmente carbonato de terras raras, etapa inicial do beneficiamento, e manteve queiza sobre volumes durante a fase de otimização. O plano de ramp-up prevê a contratação de cerca de 500 trabalhadores — entre próprios e terceiros — sobre uma base atual superior a 1.000 empregados.

A USA Rare Earth já vinha ampliando seu portfólio, com operações de mineração, processamento e fabricação de ímãs em quatro países, e a fusão promete integrar a cadeia fora da Ásia. Grossi ressaltou que o acordo amplia acesso a tecnologias e mercados e colocou a nova entidade, na sua avaliação, como a maior integrada fora da Ásia. O pano de fundo global é a forte concentração chinesa: cerca de 90% das terras raras processadas vêm da China, o que sustenta o interesse estratégico de Estados Unidos e parceiros em diversificar fornecimentos.

Do ponto de vista nacional, a transação abre oportunidades e gera perguntas. O aporte de recursos pode acelerar exploração e ampliar oferta, beneficiando Goiás e a balança comercial. Por outro lado, Grossi afirmou que não há planos aprovados para etapas mais avançadas de industrialização no Brasil — a separação de óxidos, a produção de ligas e de ímãs continuam sem compromisso concreto. Assim, o negócio sinaliza progresso financeiro e técnico, mas não resolve o desafio brasileiro: converter reservas — o país tem a segunda maior reserva mundial — em uma cadeia de valor local que evite ficar restrito à exportação de commoditites. Governos e reguladores terão de monitorar compromissos, garantir equilíbrio entre atração de investimentos e agregação de valor doméstica, sob pena de perda de oportunidade industrial e de emprego qualificado.