O comprometimento da renda disponível das famílias brasileiras com o serviço da dívida junto ao sistema financeiro alcançou 29,7%, segundo dados do Banco Central. O indicador, que mede amortizações e juros, coincide com outro sinal de alerta: o Serasa aponta que quase metade das famílias tem dívidas em atraso. Para pesquisadores que acompanham crédito, esse agravamento foi gradual, não um choque isolado.
Especialistas destacam que o número do Banco Central só captura o ônus perante instituições financeiras — e não inclui gastos recorrentes como contas de luz, água, telefonia ou compras no varejo. Essa sobreposição de compromissos expõe bolhas de vulnerabilidade: famílias com acesso ampliado ao sistema financeiro, resultado da bancarização acelerada e da digitalização, passaram a contrair crédito sem, muitas vezes, a educação financeira necessária para gerir prazos e custos.
No centro do debate político está a proposta de uma nova rodada do programa Desenrola, voltado à renegociação de dívidas. A experiência anterior teve mérito ao incentivar acordos e despertar consumidores para a negociação. Mas há um risco concreto de incentivo perverso: sucessivas edições podem ensinar expectativas de alívio futuro e reduzir o custo percebido de deixar dívidas vencerem. A saída, defendem analistas, é condicionar renegociações a programas de formação financeira e a mecanismos que incentivem o pagamento efetivo.
Do ponto de vista econômico e fiscal, a combinação de maior serviço da dívida e alta inadimplência tende a pressionar consumo e elevar perdas no sistema financeiro, com reflexos para atividade e potencial aumento de custos sociais. Para o governo, insistir em soluções repetitivas sem correções estruturais — regulação mais clara, transparência das faturas e educação financeira — pode aliviar temporariamente a pressão política, mas ampliar o desgaste econômico no médio prazo. A alternativa é integrar renegociação, regras que protejam o consumidor e medidas que reduzam o incentivo ao não pagamento.