Em meio à intensificação de eventos climáticos extremos, a indústria da construção busca respostas técnicas — asfaltos modificados, concretos de alto desempenho, pavimentos refletivos e soluções baseadas na natureza — para tornar cidades mais resilientes. A adoção de inteligência artificial para projetar cenários futuros mostra avanço tecnológico, mas esbarra em um problema estruturante: a falta de recursos públicos e a fraca incorporação dessas exigências em processos de contratação.

Representantes da Cbic têm enfatizado que é preciso olhar além da obra isolada e pensar em planejamento urbano sistêmico, no padrão do programa Making Cities Resilient (MCR2030), do ONU, que várias cidades brasileiras já seguem. Na prática, modelos tradicionais de drenagem, calibrados por históricos centenários de chuva, não correspondem mais à realidade — casos recentes como as chuvas em São Paulo e as enchentes no Rio Grande do Sul evidenciam que estruturas projetadas para cenários menores foram vencidas pelo volume e pela intensidade das precipitações.

Do ponto de vista regulatório, a Lei 14.904 (julho de 2024) foi um passo importante ao estabelecer diretrizes para planos de adaptação climática, mas a transição para a aplicação rotineira ainda é incompleta. Há concorrências públicas que não exigem critérios atualizados de resistência climática, e o licenciamento ambiental precisa de ajustes para reduzir incertezas legais que desestimulam investimentos privados. Sem normas claras e aplicadas de forma consistente, projetos mais caros e tecnicamente robustos tendem a perder espaço para soluções imediatas e de menor custo.

O principal desafio, porém, permanece fiscal. Municípios relatam escassez de recursos para ações permanentes de adaptação — obras preventivas, manutenção e requalificação de espaços verdes, reabertura de cursos d’água e modernização de prédios públicos para servirem de referência. A consequência política e econômica é evidente: custos de emergência e prejuízos a empresas e serviços essenciais (incluindo centros de dados e infraestrutura logística) aumentam, enquanto a confiança em planos de longo prazo se reduz.

A saída demanda coordenação e priorização orçamentária: o setor defende que o poder público lidere pelo exemplo, adotando critérios de resiliência em edifícios e contratos, e que se criem mecanismos de financiamento estáveis para que adaptações deixem de ser apenas iniciativas pontuais. Sem essa mudança, ganhos tecnológicos e boas práticas de engenharia continuarão limitados por restrições fiscais e por procedimentos licitatórios que ainda não assimilam a nova realidade climática.