O Comitê de Política Monetária (Copom) anunciou corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic, que passou para 13,75% ao ano. Apesar da redução, o comunicado desta reunião não fechou a porta para novas quedas: o tom repetiu grande parte do documento anterior e enfatizou que a magnitude das próximas calibrações será definida pelos dados econômicos.

Rafaela Vitória, economista-chefe do banco Inter, avaliou que o Copom deixou o afrouxamento monetário “em aberto”. Para ela, a combinação de inflação em desaceleração e atividade fraca cria um ambiente favorável a cortes adicionais — o Inter projeta duas reduções que levariam a Selic a 13,25% até o fim do ano —, mas essa trajetória está condicionada a sinais complementares.

O principal elemento de risco destacado pela economista é o cenário fiscal após as eleições. Um programa crível de controle de gastos ajudaria a ancorar expectativas e abriria espaço para cortes mais ambiciosos; por outro lado, estímulos fiscais ou deterioração nas contas públicas poderiam pressionar câmbio e inflação e forçar interrupção do ciclo. O próprio BC, no dia, trouxe sinalizações de que a atividade já mostra freio: o indicador de julho registrou queda de 0,2% e há risco de PIB do terceiro trimestre em território negativo.

No plano externo, Vitória vê a alta de juros nos EUA como um condicionante, mas não um impeditivo imediato, dado o diferencial ainda elevado da taxa brasileira. Já o petróleo muito alto e por longo período preocupa por repasses a preços de commodities e transporte. Do lado do emprego, a taxa de desemprego em 5,4% segue baixa, mas há sinais de perda de dinamismo na geração de vagas e na renda real, o que tende a reduzir pressões salariais. Em suma: o Copom abriu espaço, mas deixou a bola no campo fiscal — e é nesse terreno que se definirá a amplitude do afrouxamento.