O comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) reacendeu o debate sobre os riscos fiscais do país e elevou a pressão sobre o próximo governo. A decisão de reduzir a Selic em 0,25 ponto percentual veio dentro do esperado, mas o tom mais severo do Banco Central — com horizonte de convergência da inflação projetado apenas para o primeiro trimestre de 2028 — coloca limites claros à margem de manobra fiscal e monetária.
Para o economista Arnaldo Lima, da Polo Capital, o problema é estrutural. Desde o Plano Real a carga tributária brasileira cresceu para mais de 34% do PIB, bem acima da média de emergentes (cerca de 24%–25%), enquanto 93% das despesas federais já são obrigatórias. Com apenas 7% do orçamento sob discricionariedade, o ajuste passa a recair quase exclusivamente sobre gastos, cenário que encontra forte resistência política e social.
O quadro tem efeitos econômicos palpáveis: o investimento público, que já foi superior a 10% do PIB, hoje fica abaixo de 3%, reduzindo a capacidade do Estado de alavancar projetos e abrindo espaço para maior participação do mercado de capitais — desde que o país ofereça contas mais estáveis. Segundo Lima, contas públicas mais equilibradas atrairiam mais capital estrangeiro, ajudariam a reduzir inflação e promoveriam crescimento com impacto positivo sobretudo sobre os mais vulneráveis.
A leitura do mercado é clara: o Banco Central, ao destacar riscos pelo lado da oferta e da demanda — com ênfase na inflação de serviços, que acumula 5,9% em 12 meses — sinaliza que a redução de juros depende de ajustes fiscais concretos. Isso acende um alerta para o próximo mandato: será preciso escolher entre aumentar receita, o que é politicamente custoso, ou enfrentar uma reforma que modifique a trajetória das despesas obrigatórias. Sem essas mudanças, a dificuldade em reduzir juros e acelerar investimentos tende a se perpetuar.