A expectativa dominante do mercado é de que o Copom anuncie um corte de 25 pontos-base na Selic, reduzindo a taxa para 14% ao ano. A probabilidade já vinha sendo precificada pela curva a termo e ganhou força após a prévia do IBGE: o IPCA-15 de julho subiu apenas 0,06% no mês e acumulou 4,52% em 12 meses, com inflação menos disseminada entre bens e serviços.

Os sinais domésticos de perda de impulso na produção industrial, no comércio, nos serviços e no crédito reforçam o argumento técnico para um afrouxamento. É o efeito esperado de juros elevados: desacelerar a demanda e aliviar pressões inflacionárias. Ainda assim, o resultado pontual de julho não garante, por si só, convergência sustentada até o centro da meta (3%). O Boletim Focus mostra que as expectativas para 2026 recuaram, mas as projeções para 2027 e 2028 subiram, deixando expectativas desancoradas.

O quadro externo corta a margem de manobra do Copom. Nos EUA, o PCE — índice de inflação acompanhado pelo Fed — acumula 3,7% em 12 meses, e a composição dos dados indica demanda privada ainda resiliente, reduzindo a aposta em cortes rápidos nos juros americanos. Taxas superiores por mais tempo sustentam o dólar e limitam o espaço para redução acelerada de juros em economias emergentes como o Brasil. A retomada das tensões no Oriente Médio também colocou o petróleo perto de US$ 90 o barril, um vetor de pass-through para combustíveis, fretes e custos industriais.

Diante desse mix, um corte de 0,50 ponto parece improvável; a manutenção da Selic também não é descartada, embora contrarie sinais recentes do próprio Banco Central e a expectativa majoritária do mercado. O desfecho mais provável é um ajuste de 25 pontos com comunicado cauteloso. Mais relevante que o tamanho do corte será a leitura que o Copom transmitir sobre a continuidade do ciclo: abrir espaço para novas reduções ou desenhar uma pausa.

As consequências políticas e econômicas são claras: um corte leva alívio a crédito e atividade e reduz custos financeiros no curto prazo, mas um movimento prematuro pode cobrar preço em credibilidade e elevar o risco de nova alta da inflação. A mediana das projeções do mercado aponta Selic em 14% no fechamento de 2026 — o que sugere que, se confirmado, o corte de agosto pode ser também o último do ano, a menos que o Banco Central recupere margem de confiança nas expectativas futuras.