A ata do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada nesta terça, voltou a colocar o foco na cautela: embora a Selic tenha sido reduzida para 13,75% ao ano na última reunião, o colegiado enfatiza que a inflação continua pressionada pela demanda e que a política monetária precisa manter caráter restritivo. Em vez de cravar o próximo passo, o documento afirma que a dimensão total do ciclo de calibração será ajustada à medida que o cenário evoluir.

O texto destaca vulnerabilidades domésticas que podem elevar a taxa de juros neutra — referência para custos de crédito no país — entre elas o arrefecimento no esforço por reformas estruturais, uma disciplina fiscal mais frouxa e o aumento de crédito direcionado. Esses fatores não são neutros: se persistirem, empurram para cima a taxa considerada sustentável pela economia, exigindo juros nominais mais altos para domar a inflação.

O Copom também chama atenção para choques de oferta, que têm influenciado a inflação recente, mas diz que não reagirá aos efeitos primários desses choques, monitorando, porém, possíveis efeitos secundários que demandariam resposta firme. No plano externo, a continuidade do conflito no Oriente Médio levou o Banco Central a alertar para maior volatilidade em preços de ativos e commodities — outro elemento que condiciona a condução da política monetária.

Além de marcar posição técnica, a ata tem implicações políticas e econômicas claras: sinaliza aos mercados e ao governo que a manutenção da credibilidade e da disciplina fiscal é condição para reduzir o prêmio de risco e aliviar a necessidade de juros mais elevados. Com atividade econômica mostrando moderação — o PIB cresceu 0,5% no 2º trimestre de 2026 —, o desafio é calibrar estímulos sem abrir mão do controle da inflação, tarefa que tende a cobrar custo político e exigir coordenação entre política fiscal e monetária.