Os Correios registraram um prejuízo líquido de R$ 5,55 bilhões no primeiro semestre de 2026, alta de 30,36% frente ao mesmo período de 2025. O resultado confirma sequência de perdas que, desde 2022, somam mais de R$ 16 bilhões, segundo levantamento do setor. Em 2025, o rombo chegou aos R$ 8,5 bilhões e, para enfrentar a crise de liquidez, o fim daquele ano contou com aporte de R$ 12 bilhões viabilizado por um consórcio bancário com garantia do Tesouro Nacional.

O ex-secretário de Política Econômica Márcio Holland, hoje professor da FGV, avalia que o programa de reestruturação em curso — que inclui venda de ativos e plano de demissão voluntária — é uma medida necessária, porém insuficiente para reverter a trajetória de deterioração. Para ele, a estatal não vem encontrando caminho para recuperar receitas ou geração de caixa e segue dependente de operações de crédito com aval público, o que ele classifica como risco fiscal relevante.

O impacto político e fiscal é claro: a continuidade de perdas bilionárias transfere efeito direto para as contas públicas e limita espaço fiscal para outras prioridades. A dependência de garantias do Tesouro eleva o custo do apoio e cria exposição ao contribuinte — um problema que, na avaliação de especialistas, não se resolve apenas com PDV e venda de imobilizado. O cenário complica a narrativa oficial e exige debate público sobre alternativas estruturais, como privatização, parcerias estratégicas internacionais e revisão da governança.

Na prática, medidas pontuais podem dar fôlego temporário, mas parecem incapazes de cobrir a magnitude dos déficits acumulados. A discussão a partir de agora precisa ser transparente: definir prazos, estimativas do impacto fiscal e opções de mudança societária e de modelo de negócio. Sem isso, a conta tende a recair sobre o Tesouro e, por conseguinte, sobre políticas públicas sensíveis como saúde, educação e infraestrutura.