O turismo brasileiro alcançou faturamento de R$ 143,1 bilhões no primeiro semestre, aponta levantamento da FecomercioSP — o maior resultado para o período em 15 anos. O desempenho chama atenção num cenário econômico ainda marcado por juros elevados e sinais de fragilidade em outros setores do consumo, o que indica que o setor tem apresentado resiliência fruto, em grande parte, de condicionantes financeiros do lado da demanda.
Segundo Guilherme Dietze, do Conselho de Turismo da FecomercioSP, o principal motor tem sido o acesso facilitado ao crédito, com destaque para o cartão de crédito parcelado, cuja concessão cresce acima de 10% segundo dados do Banco Central. O crescimento foi mais intenso no primeiro trimestre; o segundo trimestre trouxe variação mais modesta — junho registrou queda no número de passageiros na comparação anual —, mas julho voltou a mostrar recuperação, com RPK subindo 3% e número absoluto de passageiros em alta de 2%. A entidade projeta encerrar o ano perto de 4% de alta e com novo recorde histórico.
O quadro revela uma contradição: viagens são sustentadas pela disponibilidade de crédito mesmo em ambiente de taxas altas. Essa dependência facilita o consumo de férias no curto prazo, mas aumenta a exposição do turismo a choques no mercado de crédito ou a uma piora na inadimplência das famílias. Dietze reconhece limites para uma expansão mais robusta — juros e inadimplência — e aponta também que a relativa estabilidade do dólar (em torno de R$5,10 a R$5,20) tem ajudado, na medida em que reduz a imprevisibilidade do câmbio para quem planeja viagens internacionais.
Do ponto de vista prático, o setor terá de conviver com dois vetores: a demanda doméstica, impulsionada por mudança de comportamento pós-pandemia e por destinos nacionais mais atrativos, e a fragilidade decorrente da alavancagem via crédito. No calendário próximo, o período eleitoral deve deslocar parte do turismo corporativo para novembro e dezembro — uma adaptação de calendário, não um cancelamento — mas serve como lembrete de que fatores políticos também moldam a dinâmica de curto prazo. Em síntese, o resultado é positivo, mas a continuidade do crescimento dependerá de estabilidade no crédito, controle da inadimplência e manutenção da previsibilidade cambial.