O aparato político em torno das criptomoedas — com destaque para o apoio público da Casa Branca e medidas regulatórias amigáveis — não foi suficiente para evitar uma forte correção no mercado. Em 2025, os empreendimentos cripto da família do presidente Donald Trump declararam receitas que superaram US$ 1 bilhão, entre venda de tokens e contratos de licenciamento. Apesar desse fluxo de recursos, o bitcoin, que chegou a ultrapassar US$ 126 mil em outubro de 2025 após uma valorização superior a 80% no pós-eleição, encerra um ciclo de perdas que o deixou abaixo de US$ 60 mil, mais de 50% aquém da máxima.

A administração Trump buscou traduzir simpatia política em vantagem regulatória: nomeações favoráveis à SEC, defesa de projetos bipartidários para dar clareza às negociações de ativos digitais, proposta de uma reserva estratégica de bitcoin e sinalizações públicas em eventos com líderes do setor. Paralelamente, houve recuos em ações fiscais contra algumas empresas ligadas ao universo cripto e dispensas de processos citadas em declarações financeiras. No entanto, esses gestos não impediram o colapso de ativos especulativos: a memecoin associada ao presidente rendeu, em contrato de licenciamento, US$ 635 milhões para seus negócios — ao mesmo tempo em que perdeu 98% de valor desde o lançamento.

O contraste expõe um dilema: a indústria quer ser enquadrada como legítima para atrair capital institucional, mas continua vinculada a episódios de fraude e bolhas que minam confiança. Analistas jurídicos e de mercado apontam que favorecimentos regulatórios e receitas privadas do clã Trump podem, na prática, agravar suspeitas de conflito de interesse e prejudicar a narrativa de profissionalização do setor. A versão oficial da Casa Branca ressalta que o presidente não gerencia diretamente seus negócios, e Trump atribui ganhos à alta dos mercados em geral — argumento que não elimina o problema da percepção pública.

Politicamente, a situação complica o discurso de quem prometeu transformar os EUA em "capital das criptomoedas": a discrepância entre o apoio institucional e a deterioração dos preços amplia críticas sobre supervisão e transparência. Economicamente, o episódio lembra que privilégios regulatórios têm limites quando faltam fundamentos de adoção e liquidez para sustentar preços. Para investidores e formuladores de política, a lição é dupla: ganhos privados relevantes não substituem governança sólida, e a tentativa de impulsionar mercados especulativos pode trazer custos reputacionais e riscos sistêmicos.