A crise global de memórias RAM entrou na agenda de risco das operadoras brasileiras. Em evento nesta quinta, o CEO da Claro avaliou que a combinação entre desvio de produção para memórias de alta performance (HBM), transição ao padrão DDR5 e cortes estratégicos de oferta pode manter preços elevados até meados de 2026. O impacto já se materializa em reajustes que ultrapassam 30% em equipamentos como set‑top boxes, televisores, modems e smartphones, pressionando margens e a cadeia de venda ao consumidor.

A Claro afirma estar absorvendo boa parte do aumento para evitar repasses imediatos, mas admite limite para essa estratégia. A manutenção de preços no curto prazo reduz receita operacional e corrói margem de lucro, o que, numa visão liberal de mercado, exige ajustes de eficiência ou revisão de oferta comercial. Para além do repasse inflacionário, há risco concreto de falta de produtos: fornecedores emitem sinais de escassez e compradores globais antecipam aquisições, alimentando um círculo de pressão sobre a oferta.

A dependência do Brasil de importações e o formato tributário vigente aparecem como entraves adicionais. A empresa — única parceira Nvidia Account na América Latina — diz não conseguir hospedar certas GPUs no país por causa da estrutura de tarifação, mantendo processamento fora do território nacional. O projeto Redata, que prevê desoneração para equipamentos de data centers, virou critério para atração de investimento e para a transferência de infraestrutura crítica. A discussão se desloca, portanto, do operacional para o palco político: a demora legislativa complica a narrativa oficial sobre digitalização e competitividade.

O cenário impõe escolhas com implicações econômicas e eleitorais. Para o governo, há pressão por mudanças que reduzam custo de importação e estimulem núcleos de processamento locais — demanda que combina interesse privado e agenda de soberania digital. Para as operadoras, a alternativa é repassar preços, reduzir oferta ou acelerar ganhos de eficiência. No curto prazo, consumidores e empresas estarão sujeitos a preços mais altos e a possíveis rupturas de estoque; no médio prazo, a capacidade do país de atrair tecnologia dependerá da resposta política à barreira tributária.