A conversa nos mercados, padarias e filas de farmácia repete uma mesma queixa: "está tudo muito caro". Os dados oficiais mostram um quadro misto: o IPCA em 12 meses até abril ficou em 4,39% — número que indica inflação sob controle em termos de ritmo, mas que não traduz a experiência cotidiana dos consumidores.
O descompasso entre índice e sensação tem explicação técnica. A inflação mede velocidade de alta de preços, não o nível absoluto deles. Depois dos reajustes, muitos preços não retornam ao patamar anterior; assim, mesmo com a estabilidade relativa da inflação, o custo real de manter o padrão de consumo permanece elevado.
Os números compilados pelo levantamento entre 2011 e 2025 acentuam a discrepância: a cesta básica subiu 205,1% no período, enquanto o salário mínimo aumentou 178,5%. Em 2011 a cesta consumia cerca de 50,88% do mínimo; em 2025 esse peso passou para 55,73% — e na cidade mais cara, São Paulo, a cesta equivalia a 60,43% do mínimo registrado em abril.
A consequência econômica é direta: famílias cortam consumo não essencial e perdem margem de proteção contra choques. O reflexo político também é evidente. O paralelo entre crescimento do PIB, queda do desemprego e aumento da renda por um lado, e a percepção de aperto no bolso por outro, complica a narrativa do governo e acende alerta sobre o custo político de restrições ao poder de compra.
De olhos na eleição de 2026 e na agenda fiscal, a leitura para a administração é clara: manter indicadores agregados positivos não basta se a população não sentir melhora real no orçamento doméstico. A diferença entre ritmo e nível de preços exige resposta mais direta sobre oferta, tributação e políticas de renda para reduzir a distância entre estatísticas e vida cotidiana.