Levantamento da Conta Azul para o Índice Quanto Sobra 2026 mostra que faturamento e lucro não andam juntos: dependendo do modelo de negócio, a parcela que permanece depois de pagar fornecedores, folha, custos operacionais, impostos e retirada do dono varia de 33,8% a 13,4% do faturamento. No exemplo usado pela análise, um negócio com R$ 35 mil de receita mensal fica com algo entre R$ 11.831 e R$ 4.682 ao final do mês.

O recorte feito a partir de dados do IBGE e da legislação do Simples Nacional revela que a estrutura da operação explica grande parte da diferença. Serviços recorrentes — como escritórios de contabilidade, software houses e escolas de idiomas — registram as maiores sobras proporcionais (33,8%). Já o comércio B2C — padaria, mercadinho, loja de roupas, restaurante e bar — aparece na base, com apenas 13,4% retidos. No conjunto, o custo para operar varia entre 56,9% e 80,4% do faturamento, enquanto o Simples corresponde a 6,2%–9,3%. Ou seja: o imposto pesa, mas os gastos de operação são o fator dominante.

O estudo também mostra que crescer em receita não garante aumento da margem: a progressividade do Simples e a dinâmica dos custos reduzem a porcentagem que sobra à medida que o faturamento sobe. Em serviços recorrentes, a sobra estimada cai de cerca de 35% nas faixas menores para 30,9% na faixa de R$ 250–300 mil; no varejo, passa de 13,7% para 12,6%. A amostra da Abrasel, citada no levantamento, indica a gravidade no setor de alimentação: 20% dos bares e restaurantes operam no vermelho, 37% empatam e só 42% têm lucro.

O retrato exposto pelo índice acende alerta para gestores e formuladores de políticas: reduzir carga tributária sem enfrentar o custo de operar tende a ter efeito limitado sobre a rentabilidade real. Para a pequena empresa, o desafio é operacional — eficiência, logística, custos trabalhistas, aluguel e crédito comprimem as margens. Do ponto de vista econômico, isso significa maior risco de fechamento, pressão por informalidade e dificuldade de geração de emprego formal. A solução passa por políticas e práticas que melhorem produtividade e diminuam custos fixos, não apenas por alívios fiscais pontuais.