Na última quarta-feira (5), o Copom do Banco Central aprovou, por unanimidade, o quarto corte consecutivo da taxa básica: 0,25 ponto percentual, elevando a Selic ao patamar de 14% ao ano. Apesar da decisão dovish, o comunicado do Comitê deixou em aberto a trajetória para setembro, sinalizando que o ciclo de afrouxamento pode ser interrompido se riscos se materializarem.

Economistas consultados destacam que o cenário externo e fatores pontuais de oferta seguem como vetores capazes de complicar a continuidade dos cortes. Felipe Sichel, da Porto Asset, afirma que uma redução adicional só se mantém condicionada a sinais claros de desaceleração econômica, inflação comportada nos próximos meses e um câmbio estável. Ele aponta o avanço dos preços do petróleo, ligado ao conflito no Oriente Médio, como risco que aumenta a inflação sem estimular a atividade.

Fernanda Guardado, do BNP Paribas, ressalta que o horizonte de inflação relevante para o BC ainda traz incertezas, especialmente diante de riscos climáticos como o El Niño, que tendem a pressionar preços de alimentos. A expectativa de aperto em bancos centrais externos, como o Fed, também pesa: embora o Brasil esteja menos exposto por já partir de juros mais altos, as idiossincrasias domésticas mantêm a autoridade monetária vigilante. Cristiane Quartaroli, do Ouribank, acrescenta a variável eleitoral e projeta cortes graduais, com vantagem temporária do câmbio pela valorização da moeda.

Arnaldo Lima, da Polo Capital, chama atenção para o custo de manter juros reais elevados sobre o crescimento potencial de longo prazo, pedindo equilíbrio. O diagnóstico comum é que há espaço técnico para reduzir juros, mas a janela política e os riscos externos e climáticos tornam o caminho estreito: o BC terá de calibrar cortes à prova de choques, preservando a ancoragem da inflação sem sacrificar a recuperação de emprego e atividade.