Dois em cada três brasileiros (67%) afirmam ter dívidas financeiras, aponta pesquisa do instituto Datafolha realizada nos dias 8 e 9 de abril com 2.002 entrevistados em 117 municípios (margem de erro de 2 pontos). O levantamento traz um retrato amplo do aperto nas contas domésticas: 21% dizem ter dívidas em atraso, enquanto 45% relataram viver em situação financeira apertada ou severa.
O estudo detalha os tipos de endividamento: inadimplência no cartão de crédito parcelado atinge 29% dos que possuem essa obrigação; empréstimos em banco chegam a 26% e carnês de lojas a 25%. Entre quem recorreu a empréstimos com amigos e familiares, 41% não quitaram o débito. O uso do crédito rotativo — acionado ao pagar apenas o mínimo da fatura — foi mencionado por 25% dos entrevistados, sendo 5% usuários frequentes e 22% ocasionais.
Além das dívidas financeiras, 28% afirmam estar com contas de consumo atrasadas. Os itens mais citados são telefone, celular e internet (12% dos inadimplentes), tributos como IPTU e IPVA (12%), luz (11%) e água (9%). O levantamento também registra mudanças nos hábitos e redução do consumo entre os entrevistados, sinais de que as restrições orçamentárias estão sendo traduzidas em menor demanda por bens e serviços.
Do ponto de vista econômico e político, os números acendem alerta: a ampla difusão da dívida e da inadimplência tende a limitar a recuperação do consumo, pressionar o crédito ao consumidor e elevar o risco para varejo e instituições financeiras. Para o governo e formuladores, o cenário complica a narrativa de melhora da renda e pode aumentar a pressão por medidas de suporte a famílias vulneráveis ou por ações que atendam ao aperto no crédito, sem aliviar de forma insustentável a disciplina fiscal.