Quase metade dos brasileiros teve de buscar uma fonte adicional de renda nos últimos meses. Pesquisa Datafolha de abril aponta que 45% dos entrevistados recorreram a trabalhos informais, bicos ou outras receitas para fechar as contas. Ao mesmo tempo, 59% afirmam que o rendimento mensal é insuficiente, enquanto apenas 6% dizem receber mais do que o necessário. O cenário é mais crítico entre quem ganha até dois salários mínimos: 73% consideram a renda insuficiente.
O levantamento, que ouviu 2.002 pessoas em 117 municípios entre 8 e 9 de abril, também registra que 41% disseram ter sentido redução de renda recentemente e que 4 em cada 10 famílias enfrentaram algum corte na renda. O Banco Central sinalizou em paralelo que cerca de metade das famílias registra dívidas (49,9%), informação que conecta diretamente a perda de renda com maior fragilidade financeira e menor capacidade de consumo.
O movimento de busca por renda extra é mais intenso entre quem tem ensino médio completo ou superior — 51% desse grupo declararam procurar novas fontes de receita —, o que indica que o problema não se limita às camadas de menor escolaridade. Para a economia, a combinação de queda de renda, endividamento e tentativa de compensação por rendas alternativas tende a reduzir a propensão a consumir, afetando vendas do varejo e a arrecadação tributária no curto prazo.
Politicamente, os números acendem alerta sobre a percepção pública da recuperação econômica: um grande contingente que sente a renda apertada complica a narrativa oficial sobre crescimento e melhora no poder de compra. O quadro aumenta a pressão por medidas que aliviem a liquidez das famílias — sem, porém, prometer soluções milagrosas — e exige respostas que conciliem proteção social com responsabilidade fiscal. A pesquisa é um retrato do momento, mas aponta para riscos concretos à estabilidade do consumo e ao ambiente político, sobretudo se a tendência de perda de renda persistir.