As contas públicas voltaram a ocupar o centro do debate sobre o futuro fiscal do país. Dados do Banco Central mostram déficit primário de R$ 55,3 bilhões em junho de 2025 — aumento de R$ 8,2 bilhões em relação ao mesmo mês do ano anterior — e um rombo de R$ 157,2 bilhões nos últimos 12 meses, equivalentes a 1,19% do PIB. Paralelamente, a relação dívida/PIB ultrapassa os 80%, posicionando o Brasil entre os países mais endividados do G20, atrás apenas da China. Esse conjunto reduz o espaço de manobra do governo e eleva o custo político e econômico de decisões populistas em ano pré-eleitoral.
A deterioração fiscal tem efeitos concretos: juros e câmbio já refletem maior percepção de risco. A Selic permanece em 14% ao ano, com juros reais em torno de 9,33% segundo levantamento citado no mercado, e o dólar acumulou alta próxima a 2% em uma semana de agosto. Saídas de capitais intensificam a vulnerabilidade — investidores estrangeiros retiraram R$ 11,93 bilhões da bolsa em sete pregões até 11 de agosto — o que pressiona a cotação do real e pode transferir pressão para preços e para a política monetária.
Economistas ouvidos indicam que a escalada do déficit e o crescimento de despesas obrigatórias — incluindo indexação do salário mínimo e ampliação de programas sociais — reduzem a credibilidade do compromisso fiscal. Há sinalização no programa de governo de um novo mandato sobre responsabilidade fiscal, mas especialistas ressaltam que a promessa ainda não se converteu em medidas convincentes. Estimativas de necessidade de ajuste de cerca de quatro pontos percentuais do PIB, na ordem de R$ 500 bilhões, mostram que o desafio é profundo e exige escolhas duras que terão custo político.
Do ponto de vista prático, a combinação de deterioração nas contas, juros elevados e saída de capitais complica a agenda econômica: pressiona inflação, eleva custo da dívida e amplia o desafio de retomar confiança no mercado. Para quem governa — e para quem disputa a sucessão — a lição é clara: sem trajetória fiscal crível, ganhos de curto prazo com expansão de programas e estímulos são pagos depois em forma de juros mais altos, menor investimento e menos margem para políticas públicas. A questão central para 2027 é se haverá vontade política e instrumentos técnicos para converter compromisso em ajuste real, sem improvisos que ampliem riscos institucionais e econômicos.