Um novo conjunto de sinais de fragilidade nas empresas públicas federais volta a acender alerta sobre o espaço fiscal do governo. Dados do Banco Central registraram déficit de R$ 1,5 bilhão das estatais em junho, e um relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) identificou, em 2025, a deterioração econômico-financeira de 11 companhias que atuam em setores variados. Para quem acompanha as contas públicas, a leitura é clara: perdas relevantes no setor estatal podem se traduzir em pressões adicionais sobre o Tesouro.

O TCU destaca os Correios como o caso mais grave. A empresa fechou 2025 com prejuízo líquido de R$ 8,5 bilhões e perdeu cerca de 30% de participação no mercado de encomendas desde 2018. Gastos com pessoal representam mais de 60% das despesas totais. Para manter a operação, os Correios contrataram R$ 12 bilhões em empréstimos com garantia da União em dezembro de 2025, cujo custo projetado chega a R$ 34,2 bilhões até 2040, além de um aporte mínimo de R$ 6 bilhões previsto até 2027. A estatal ainda busca nova linha de crédito de R$ 8 bilhões para 2026. O plano de reestruturação enfrenta dificuldades: o desligamento voluntário teve 3.748 adesões até abril de 2026, ante meta de 10 mil, e a venda de imóveis arrecadou apenas R$ 11 milhões frente à previsão de R$ 1,5 bilhão.

Além dos Correios, o TCU aponta risco no setor nuclear. A Eletronuclear registrou prejuízo de R$ 142,1 milhões em 2025, com impacto nas empresas vinculadas — ENBPar e INB — que dependem fortemente das operações nucleares. Segundo o tribunal, custos operacionais superiores à receita regulada e dívidas associadas à construção de Angra 3 elevam a probabilidade de necessidade de aportes públicos. O diagnóstico do TCU também abrange companhias portuárias, a Casa da Moeda, Emgea e Infraero, descrevendo problemas estruturais: queda de receitas, custos elevados, passivos trabalhistas e previdenciários e dependência de soluções temporárias.

A combinação de déficits e medidas contingenciais amplia desgaste sobre a margem fiscal e complica a narrativa oficial sobre ajuste e responsabilidade orçamentária. Há ainda um risco político concreto: se uma estatal como os Correios for reclassificada de não dependente para dependente, suas contas passariam a integrar diretamente o orçamento federal, com impacto imediato no resultado primário. Para o governo, o desafio é duplo — estrutural e político —: é preciso demonstrar capacidade de reestruturação real dessas empresas ou preparar-se para incorporar custos adicionais ao Tesouro, em um contexto de restrição fiscal e atenção pública.