Um estudo da consultoria Bain & Company projeta que a demanda global por biocombustíveis pode crescer até quatro vezes até 2050, impulsionada pela busca por segurança energética e pela meta de reduzir emissões. Ao mesmo tempo, a consultoria alerta para um possível déficit de oferta de até 45% já em 2040 caso o setor não avance em escala, tecnologia e regulação — um sinal claro de oportunidade e risco que acende alerta para governos e investidores.

A pesquisa traça três cenários: o mais conservador prevê crescimento de 2,5 vezes — cenário que refletiria retrocessos regulatórios —; o cenário baseado em políticas atuais aponta multiplicação por três; e o mais favorável, condicionado a políticas públicas coordenadas e mandatos obrigatórios, eleva a demanda a quatro vezes. Entre as medidas necessárias estão mandatos de mistura, adoção massiva de SAF e metas para descarbonizar transporte marítimo e aéreo.

O relatório aponta entraves estruturais e econômicos relevantes: o avanço do uso de carvão em alguns mercados, a persistência da pobreza energética que afeta mais de 1,2 bilhão de pessoas, a ausência de padrões globais harmonizados para medir pegada de carbono, barreiras comerciais protecionistas e o custo de produção do SAF, estimado em duas a três vezes o preço do querosene convencional. Esses fatores reduzem previsibilidade e aumentam o risco para investimentos que podem alcançar bilhões de dólares.

Para o Brasil, a Bain destaca frentes estratégicas necessárias: diversificação de matérias‑primas, investimento em inovação, aumento da eficiência no uso da terra e recuperação de áreas degradadas — estimadas em cerca de 100 milhões de hectares — para ampliar oferta sem pressionar desmatamento. O estudo reforça elementos de política já em curso, como o RenovaBio e a Lei do Combustível do Futuro, mas também coloca pressão sobre o governo por maior previsibilidade, incentivos bem desenhados e capacidade de coordenação internacional.

A mensagem central é administrativa e política: transformar o potencial de demanda em oferta sustentável exigirá uma agenda integrada — abertura comercial para insumos, padronização de normas, metas conjuntas setoriais e instrumentos financeiros —, sob pena de reduzir competitividade, aumentar a necessidade de subsídios e perder janelas de atração de capital. Sem essa agenda, o crescimento projetado pode significar mais tensão financeira e geopolítica do que vantagem econômica.