O Desenrola Brasil foi anunciado como resposta estrutural ao surto de inadimplência das famílias. Os números oficiais, porém, apontam para um efeito temporário: o programa repactuou R$ 53,2 bilhões em 24,2 milhões de operações, beneficiando 14,8 milhões de pessoas. Em vez de consolidar uma melhora duradoura, os microdados do Banco Central mostram que, desde o encerramento do programa, o estoque de calotes na pessoa física aumentou R$ 61 bilhões — ou seja, a cada R$ 1 renegociado surgiu R$ 1,15 em inadimplência nova.
O quadro se agravou com a alta real dos custos do crédito. Quando o Desenrola terminou, em maio de 2024, o juro médio desses empréstimos era 52,6% ao ano; hoje está em torno de 62% — um acréscimo de dez pontos percentuais. Ao mesmo tempo, o volume de operações com atraso superior a 90 dias atingiu R$ 171,4 bilhões (fevereiro de 2026). A taxa de inadimplência subiu de 5,5% para 6,9% no período. Esses dados explicam por que o alívio inicial se revelou insuficiente: famílias voltaram a contrair dívidas com custo efetivamente maior.
Do ponto de vista econômico e político, o saldo é problemático. O Desenrola operou como um alívio pontual para o sintoma — a lista de negativados — mas não alterou as causas estruturais: níveis elevados de juros, oferta de crédito sem ajuste de risco e novos vetores de consumo que comprimem orçamento, como apostas esportivas, segundo observações do mercado. O resultado é um ‘efeito sanfona’: redução temporária seguida de retomada do endividamento em condições piores.
A conclusão é clara para gestores e formuladores de política: programas de renegociação têm papel importante, mas não substituem medidas de base. Controlar a taxa de juros real, promover disciplina na expansão do crédito, estimular educação financeira e enfrentar hábitos de consumo que corroem renda são passos necessários para evitar que futuras limpezas contabilizem pouco mais do que uma troca de nomes na lista de devedores. Sem isso, o custo fiscal e político do próximo ‘remendo’ pode ser ainda maior.