Uma nova rodada da pesquisa Genial/Quaest, realizada entre 5 e 8 de junho, mostra que o Desenrola 2.0 — programa federal de renegociação de dívidas lançado no início de maio — beneficiou apenas 10% dos entrevistados. Segundo o levantamento, 88% disseram não ter se sentido favorecidos pela medida, apesar das condições anunciadas pelo governo, como descontos e juros especiais que podem chegar a 90%.
O levantamento aponta que 69% dos entrevistados estão endividados: 46% classificam suas contas como poucas dívidas e 23% como muitas dívidas. Há sinais de ligeira melhora em relação ao mês anterior: a parcela que relata muitas dívidas caiu de 28% para 23%, e os que afirmam não ter dívidas subiu de 27% para 30%. A divulgação do programa também avançou modestamente: o conhecimento público subiu de 57% para 61% em um mês.
A pesquisa destaca desigualdade na exposição ao risco financeiro: entre quem recebe até dois salários mínimos, 73% estão endividados; esse índice recua para 63% entre os que ganham mais de cinco salários mínimos. O contexto macro é pesado: dados do Serasa de abril mencionam cerca de 83,3 milhões de brasileiros em situação de inadimplência, o que indica um gap grande entre o público alvo e a efetiva adesão à iniciativa do governo.
Do ponto de vista político e econômico, os números sinalizam limitações do Desenrola 2.0. A baixa proporção de beneficiados, diante de alta prevalência de dívida, reduz o efeito imediato do programa sobre o consumo e a recuperação de crédito na ponta. Para o governo, a pesquisa acende alerta sobre a necessidade de ampliar alcance e comunicação, focalizar segmentos mais vulneráveis e mostrar resultados concretos — caso contrário, a medida corre o risco de ser percebida como cosmética, fragilizando a narrativa oficial sobre solução do problema da inadimplência. A amostra do levantamento teve 2.004 entrevistas presenciais com maiores de 16 anos; margem de erro estimada de dois pontos percentuais, com 95% de confiança.