O governo prepara o lançamento do Desenrola 2.0 em um momento de atenção para a saúde das contas das famílias brasileiras. O endividamento dos consumidores atingiu níveis recordes e, para o economista Sérgio Vale, da MB Associados, o ponto crítico não é tanto o tamanho da dívida, mas o custo que pesa sobre ela. A estratégia anunciada de usar recursos do FGTS para aliviar pagamentos vem sendo vista por especialistas como uma solução de curto prazo, capaz de reduzir imediatamente a pressão sobre consumidores, mas sem atacar a estrutura que mantém o crédito caro.
Segundo Vale, o principal entrave é a taxa de juros elevada: o brasileiro paga preços altos pelo crédito e, por isso, acaba mais exposto ao risco de inadimplência — mesmo com um estoque de dívida que, em termos comparativos, não é dos maiores globalmente. O choque recente no preço do petróleo e a revisão de projeções de inflação para valores próximos de 5% pressionaram ainda mais o custo do dinheiro, tornando o endividamento atual particularmente oneroso. Em linha com esse diagnóstico, vale esclarecer que medidas que aliviam parcelas hoje não reduzem o spread bancário nem as taxas praticadas no futuro.
O recurso ao FGTS é polêmico por dois motivos. Primeiro, mexe com um fundo concebido como proteção do trabalhador e que historicamente oferece rendimento inferior a outras aplicações; segundo, transforma reservas sociais em um instrumento de política anticrise temporária. Vale descreve o efeito como algo comparável a 'enxugar gelo': o programa tira o aperto momentaneamente, mas não cria condições para que o crédito se torne mais barato amanhã. Além disso, o governo enfrenta hoje uma posição fiscal mais frágil do que na versão anterior do programa, o que amplia o custo e o risco político da operação.
A opção pelo paliativo tem consequências tangíveis. No curto prazo, pode conter a alta da inadimplência e oferecer alívio eleitoral. No médio e longo prazos, porém, sem uma agenda fiscal crível que permita reduzir as taxas de juros para patamares mais baixos, o país seguirá vulnerável a ciclos de endividamento e queda do consumo. Vale lembra que, diante de juros reais em patamares elevados, tomar crédito agora é uma aposta arriscada, capaz de ampliar a inadimplência e frear a retomada do consumo se a recuperação econômica não se firmar.
A leitura política é direta: o governo ganha tempo com uma medida que atenua desgaste imediato, mas também assume o ônus de usar poupanças do trabalhador e de ampliar dúvidas sobre sua capacidade de entregar uma solução estrutural. Para reverter o cenário é necessário um ajuste fiscal robusto que permita, ao longo do tempo, reduzir as taxas de juros e tornar o crédito mais acessível — uma agenda que exige escolhas duras e articulação política. Sem isso, o Desenrola 2.0 corre o risco de se tornar remendo — eficaz no curativo, ineficaz na cura.