O governo acelera a finalização do Desenrola 2.0. Em reunião em Brasília, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro da Fazenda, Dario Durigan, devem consolidar ainda nesta semana as regras do programa que visa reduzir o endividamento das famílias. O desenho preliminar já foi apresentado a bancos e fintechs — entre eles Caixa, Banco do Brasil, Itaú, Bradesco, Santander e BTG — além da Febraban.
Uma das novidades que mais provoca controvérsia é a possibilidade de uso do saldo do FGTS para abater dívidas. Durigan afirmou que haverá limites para a operação, definidos como percentuais do saque, mas o governo ainda não divulgou os tetos e as condições exatas. A proposta tenta equilibrar alívio imediato para famílias com preservação do caráter do fundo, segundo interlocutores oficiais.
Setores produtivos e analistas criticam a estratégia. A Abrainc aponta que permitir saques para pagamento de dívidas pode desvirtuar a finalidade do FGTS e reduzir recursos destinados à habitação. Especialistas também lembram que o fundo funciona como um colchão para o trabalhador em caso de demissão e que liberar saldos pode simplesmente postergar um problema estrutural: nada garante que os beneficiários não voltem a se endividar.
Os números que embasam a pressa do governo acentuam o dilema: o endividamento das famílias subiu para 49,9% em fevereiro, aponta o Banco Central, com comprometimento da renda em 29,7% — patamares recordes. Politicamente, a medida pode aliviar a pressão de curto prazo, mas também complica a narrativa oficial ao expor riscos econômicos e institucionais, e deve aumentar o escrutínio de incorporadoras, mercado e setores sociais nas próximas semanas.