O aumento do endividamento e da inadimplência das famílias brasileiras voltou a colocar na agenda pública a eficácia de medidas de renegociação, como o anunciado Desenrola 2.0. Em entrevista à CNN Money, Eric Brasil, diretor da consultoria LCA, advertiu que a iniciativa pode melhorar indicadores estatísticos por curto prazo, mas não eliminará as causas que empurram famílias para a dívida, mantendo o problema como risco recorrente para a economia e para a imagem do governo.

Brasil vive um aparente paradoxo: níveis de emprego próximos a mínimos históricos, mas com crescimento do comprometimento de renda e da inadimplência. Para Eric Brasil, a explicação está no crescimento do crédito rotativo — principalmente cartão e cheque especial — e nas taxas associadas a esse produto. O crédito rotativo é o mais caro da economia e atua como armadilha: qualquer aperto no orçamento familiar tende a gerar rolagem de dívida e atraso no pagamento.

O diretor da LCA também chamou atenção para o quadro de juros reais elevados no país, que amplifica o efeito deletério do crédito caro. Sem enfrentar essa combinação — facilidade de acesso a crédito de risco elevado e custo de financiamento alto —, um programa de renegociação estruturado apenas como operação pontual corre o risco de produzir apenas um alívio temporário. Na avaliação de Brasil, sem medidas de fundo, o país pode estar discutindo nova rodada de renegociação em dois ou três anos, situação que acende alerta político e fiscal.

As saídas indicadas pelo especialista inclinam-se para reformas e políticas contínuas: reduzir as causas das taxas de curto prazo para o consumidor, ampliar programas de educação financeira desde o ensino fundamental e exigir compromisso maior das instituições na concessão responsável de crédito. Para além do ajuste contábil dos números, o desafio para o governo é combinar o Desenrola com medidas estruturais — sob pena de transformar uma ação emergencial em fonte de desgaste político e custo econômico recorrente.