O governo federal prepara o lançamento do Desenrola 2.0, segundo anúncio do ministro da Fazenda, Dario Durigan, e promete nesta semana um programa de renegociação para aliviar o peso das dívidas das famílias. A avaliação técnica, porém, é cautelosa: especialistas ouvidos apontam que a iniciativa tende a funcionar como um alívio temporário, semelhante ao Desenrola 1.0, de 2023. Na prática, o primeiro programa não impediu avanço do endividamento: o número de pessoas físicas endividadas subiu de cerca de 72 milhões para quase 82 milhões, segundo a análise citada pelo mercado.
A explicação para esse efeito limitado é estrutural. Taxas de juros historicamente altas — média superior a 10% ao ano ao longo deste século — combinam-se com um mercado em que títulos públicos remuneram bem e competem pela poupança disponível. Como foi apontado por analistas, o governo chega a pagar rendimentos na casa dos dois dígitos a investidores sem risco, o que reduz o incentivo do setor privado a ofertar crédito a preços competitivos. Há também dificuldades de garantias e um déficit de educação financeira: uma parcela relevante da população chega a pagar taxas que ultrapassam 100% em modalidades como cheque especial e rotativo do cartão.
O desenho do Desenrola 2.0, conforme as discussões públicas, incluiria travas para evitar que beneficiários retornem a modalidades de crédito mais caras e restrições ao acesso a casas de apostas. Outra proposta em debate é permitir uso do FGTS para quitação de dívidas — medida que já provoca resistências, sobretudo do setor imobiliário, que vê desvirtuamento da finalidade do fundo. Do lado dos beneficiários secundários, bancos podem ser favorecidos por mecanismos como créditos tributários, descontos e garantias públicas para operações de alto risco. Esse arranjo reduz o custo imediato de liquidação para o sistema financeiro, mas desloca risco e ônus para o setor público e para fundos originalmente destinados a outras finalidades.
Politicamente, o pacote tem atrativo claro: oferece um ganho rápido de bem-estar percebido em ano eleitoral e pode melhorar indicadores de consumo no curto prazo. Mas a consequência política e fiscal pode ser inversa se o resultado for mais um efeito temporário. Sem alteração das taxas referenciais, sem reforço à regulação de crédito e sem programas consistentes de educação financeira, a medida corre o risco de repetir o ciclo de alívio e novo endividamento. Em termos práticos, a alternativa duradoura exige reduzir o custo do crédito, aperfeiçoar garantias e preservar recursos como o FGTS para seus fins originais — caso contrário, o Desenrola 2.0 tende a aliviar contas hoje e ampliar fricções fiscais e institucionais amanhã.