O governo federal lançou a nova edição do programa Desenrola, que permite a renegociação de dívidas contratadas até 31 de janeiro de 2026 e vencidas entre 90 dias e dois anos. A iniciativa prevê quatro linhas específicas — famílias, Fies, empresas e dívidas rurais da agricultura familiar — e concentra-se em débitos de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal (CDC).
Entre os pontos anunciados está a possibilidade de o beneficiário utilizar até 20% do saldo do FGTS para quitar passivos, e prazos de pagamento estendidos de até quatro anos. Os descontos variam conforme a modalidade e o tempo de atraso: a administração do programa informou que, no caso de cartão e cheque especial, o desconto mínimo começa em 40% para atrasos de 90 a 120 dias, podendo chegar a até 90% para dívidas com maturidade entre um e dois anos.
O público-alvo são famílias com renda de até cinco salários mínimos. O governo justificou a medida como forma de ‘‘melhorar a qualidade das dívidas’’ e aliviar o que classificou como passivos muitas vezes considerados impagáveis. A iniciativa surge em meio a um quadro de juros elevados e indicador de endividamento das famílias no maior patamar da série histórica do Banco Central — 49,9% — além do comprometimento da renda com o serviço da dívida em 29,7% (fevereiro).
Do ponto de vista político, o lançamento ocorre quando o presidente busca reeleição, o que torna o programa também uma ação com potencial efeito eleitoral. Politicamente, a medida pode representar alívio imediato para famílias pressionadas pelas contas, mas também expõe o governo a críticas sobre concessões temporárias sem atacar as causas estruturais do endividamento, como juros altos e baixa inclusão financeira responsável.
Economicamente, a iniciativa tem justificativas sociais, mas traz riscos: o uso de até 20% do FGTS e descontos profundos podem reduzir reservas individuais e transferir parte do custo da renegociação ao sistema financeiro e, indiretamente, ao balanço público, dependendo das compensações e do desenho operacional. O sucesso dependerá da capacidade de centralizar ofertas, evitar fraudes e garantir que a renegociação não estimule nova tomada de crédito em condições insustentáveis.