O governo federal apresentou o Novo Desenrola Brasil, apelidado de Desenrola 2.0, com a promessa de aliviar o endividamento de milhões de brasileiros e reduzir a inadimplência que hoje atinge 81,7 milhões de consumidores, segundo levantamento da Serasa em 2026. A magnitude do problema é expressiva: a inadimplência cresceu 38% na última década, e a Confederação Nacional do Comércio (CNC) registrou nova alta do endividamento entre março e abril do ano corrente.
A iniciativa opera em quatro frentes. O Desenrola Famílias envolve renegociação de dívidas de cartão, cheque especial e crédito pessoal; prevê elegibilidade para quem tem renda de até R$ 8.105 mensais, taxa máxima de 1,99% ao mês e prazo de até 48 meses, além de ajustes nas condições do consignado para INSS e servidores. Como mecanismo complementar, o governo anunciou bloqueio de CPF em plataformas de apostas por 12 meses para impedir novo comprometimento de renda e tentar recuperar a qualidade do crédito.
Para empresas, o Desenrola Empresas amplia acesso a crédito e renegociação a MEIs e empresas de pequeno porte (até R$ 4,5 milhões de faturamento anual), com prazos e carências maiores. A frente rural busca regularizar dívidas de agricultores familiares, cooperativas, beneficiários da reforma agrária e povos tradicionais, incluindo indígenas e quilombolas — um reconhecimento de que o problema do crédito atinge também cadeias produtivas no campo.
O Desenrola Fies direciona renegociação de contratos em atraso há mais de 90 dias, com eliminação de juros e multas e parcelamento em até 150 vezes. Para dívidas vencidas há mais de 360 dias há abatimentos expressivos: até 99% do total para inscritos no CadÚnico e 77% para os demais. Bancos privados já anunciaram condições operacionais: clientes do Inter, por exemplo, poderão obter descontos de até 90%, parcelamento em até 48 meses e juros de até 1,99% ao mês — detalhes e adesões, porém, variam por instituição.
Do ponto de vista econômico e político, o Desenrola 2.0 tem potencial para recompor o saldo de crédito dos consumidores, reativar demanda e aliviar o caixa de pequenos negócios e agricultores. Ao mesmo tempo, levanta questões relevantes: qual será o custo fiscal real das medidas e até que ponto programas de renegociação em larga escala podem gerar risco moral, incentivando comportamento de atraso? A eficácia dependerá da execução, da transparência dos números e do monitoramento de indicadores — redução de CPFs negativados, retomada do crédito formal e efeitos sobre taxas — para transformar alívio temporário em recuperação sustentável. Politicamente, uma adesão ampla reduziria desgaste do governo, mas falhas na implementação ou custos mal medidos podem virar fonte de crítica e pressão no Congresso.