A Confederação Nacional do Comércio (CNC) reagiu com cautela ao anúncio do Desenrola 2.0, programa que prevê entre seus mecanismos a possibilidade de uso de recursos do FGTS para renegociação de dívidas. Para a entidade, transferir poupança formal para liquidação de passivos é uma medida paliativa que não resolve as causas do endividamento e compromete uma reserva importante para milhões de trabalhadores.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, confirmou que beneficiários poderão sacar até 20% dos depósitos no FGTS para quitar débitos no âmbito do programa, que terá prioridade inicial para pessoas físicas. Segundo a proposta em discussão, os refinanciamentos deverão ter juros abaixo de 2% ao mês e poderão incluir descontos que variam de 20% a 90% do total da dívida, abrangendo principal e encargos.

A avaliação técnica da CNC, reforçada pelo economista-chefe da entidade, é que a medida pode estimular consumo e aliviar inadimplência no curto prazo, mas cria vulnerabilidades no médio prazo. Ao reduzir a poupança obrigatória dos trabalhadores, perde-se um colchão financeiro que atua como amortecedor em choques. Sem políticas complementares — como educação financeira e mecanismos duradouros de redução de juros — há risco de formar novo ciclo de endividamento e até pressões inflacionárias locais.

Politicamente, o governo enfrenta um dilema: adotar um remédio rápido para dar resposta a famílias em aperto ou priorizar soluções estruturais que demandam tempo e custo político. A decisão de permitir uso do FGTS amplia o debate sobre responsabilidade fiscal e proteção social: trata-se de aliviar imediatamente a pressão no consumo e no mercado, mas ao custo de esvaziar uma reserva coletiva que tem papel relevante em estabilidade e planejamento familiar.