A nova etapa do programa Desenrola, chamada Desenrola 2.0, passa a permitir que trabalhadores usem parte do saldo do FGTS para amortizar ou quitar dívidas em atraso. O Ministério da Fazenda liberou consultas ao saldo e autorizou a retirada de até 20% do saldo residual ou R$1 mil — prevalecendo o maior valor — com a Caixa Econômica Federal responsável pela transferência direta aos credores após a formalização pelo banco do cliente.
O governo estima que a medida pode movimentar até R$8 bilhões e aposta que o mecanismo ajude a reduzir o endividamento das famílias, recuperar o crédito e estimular o consumo. O programa já havia renegociado cerca de R$10 bilhões em 1,1 milhão de operações até meados de maio, segundo dados do ministro Dario Durigan: cerca de 1 milhão de CPFs foram beneficiados e 449 mil dívidas foram quitadas à vista.
A ação chega em meio a um quadro persistente de inadimplência: levantamento da Serasa aponta que cerca de 50,5% da população adulta brasileira está com o nome negativado. Embora o Desenrola 2.0 ofereça alívio imediato para consumidores, há contrapartidas importantes: usar poupança vinculada ao FGTS para pagar dívidas implica perda de liquidez e pode reduzir recursos disponíveis para moradia ou emergência, uma troca cujo impacto individual depende do perfil financeiro de cada trabalhador.
Do ponto de vista operacional e político, a iniciativa amplia o acesso à renegociação — com apoio de 10 mil agências dos Correios para cadastrar trabalhadores sem conta bancária —, mas também transfere parte da responsabilidade para instituições financeiras, que têm prazo estimado de até 30 dias para formalizar e registrar as operações junto à Caixa. Para o governo, o programa oferece efeito imediato sobre indicadores de crédito e consumo; para trabalhadores e para a agenda de longo prazo, a pergunta é se a solução será suficiente para enfrentar as causas estruturais da inadimplência.