O anúncio do governo do Desenrola 2.0 na segunda-feira (27) traz de volta uma fórmula conhecida: uma renegociação de dívidas com efeito imediato no bolso do eleitor, mas com eficácia duvidosa no médio prazo. A versão anterior do programa, lembrada pelo próprio governo, ofereceu alívio temporário para famílias e empresas, porém não evitou a retomada das pressões sobre o endividamento quando os juros subiram. O novo desenho, apresentado pelo ministro da Fazenda Dario Durigan, repete esta lógica: atender a uma necessidade política de curto prazo sem atacar as causas estruturais do problema.
O ponto central da crítica é simples e técnico: reduzir o valor das parcelas ou alongar prazos melhora indicadores de inadimplência no curto prazo, mas não corrige o fator que mais pesa na sustentação das dívidas — a taxa de juros real elevada, que decorre, em boa medida, do desequilíbrio das contas públicas e do aumento da dívida do país. Além disso, a oferta ampla e pouco criteriosa de crédito e a fragilidade da educação financeira na população são elementos que o programa não enfrenta. Até o próprio ministro alertou para o risco moral de criar a expectativa de renegociações frequentes, especialmente em ano eleitoral.
As consequências políticas e fiscais são concretas. No plano político, a medida pode dar gás eleitoral imediato ao governo, mas também amplia a exposição a críticas se o alívio se dissipar e a percepção de eficácia não se consolidar. No plano fiscal, qualquer programa que facilite o reenquadramento de dívidas sem ajuste simultâneo de gastos ou receitas tende a transferir custos para o futuro, pressionando ainda mais a dívida pública. Há, portanto, um risco duplo: o de gerar dependência por parte de devedores e o de elevar o custo político de controlar o gasto público depois de medidas expansionistas.
A alternativa que o país realmente precisa passa por medidas complementares: ajuste fiscal crível que reduza a pressão sobre os juros, regulação mais rigorosa da oferta de crédito e investimentos em educação financeira. Sem isso, o Desenrola 2.0 permanecerá como um paliativo: útil para reduzir dores pontuais, mas incapaz de resolver a enfermidade que as provoca. O governo ganha um fôlego no curto prazo, mas a conta política e econômica pode voltar com mais força se a estratégia não for repensada rapidamente.