O governo lançou o Desenrola 2.0 como instrumento para aliviar o crescimento do endividamento das famílias, que atingiu patamar recorde em fevereiro: cerca de 80% dos lares com dívidas e quase 30% em inadimplência, segundo a CNC. Entre as medidas em discussão estão ‘travas’ que limitem o acesso a certos tipos de empréstimo para beneficiários, exigência de contrapartidas para evitar novo endividamento, e autorização para uso do FGTS para quitar dívidas — porém limitada a 20% do saldo e condicionada à quitação integral do débito.

O desenho proposto reduz a pressão imediata sobre orçamentos ao permitir renegociação e saque parcial do FGTS, além de concentrar a ajuda em quem ganha até cinco salários mínimos. Mas analistas ouvidos no material-base alertam que o programa funciona como um paliativo: não mexe nas causas estruturais, como o baixo nível de poupança, os incentivos ao parcelamento e o avanço dos juros do consumo, que elevam a inadimplência e pressionam taxas para todo o sistema.

Do ponto de vista econômico e político, a medida tem efeitos ambíguos. As travas de crédito podem proteger beneficiários de novos contratos predatórios, mas também correr o risco de empurrar parte da demanda para operações informais ou mais caras. O limite de 20% no saque e a condição de quitação integral vão excluir muitos endividados que não têm saldo suficiente, reduzindo o alcance real da iniciativa. A participação de B3 e BlackRock aponta para uma abordagem orientada ao mercado, reforçando caráter técnico do programa, mas também suscitando perguntas sobre prioridades de política pública.

Em resumo, Desenrola 2.0 tende a minimizar o aperto no curto prazo e a oferecer resultado político positivo para o governo, mas não substitui reformas e políticas que elevem a poupança, regulem melhor o crédito ao consumidor e desestimulem práticas de parcelamento sem planejamento. Sem essas medidas complementares, o risco é repetir ciclos de alívio temporário e nova escalada do endividamento.