O governo federal lançou nesta sexta-feira o Desenrola 3.0, nova etapa do programa de renegociação de dívidas que prevê a compra, pelo Tesouro Nacional, de carteiras de créditos em atraso. A meta anunciada é renegociar R$ 150 bilhões de dívidas, com deságios mínimos de 90% sobre títulos considerados de difícil recuperação. O público-alvo são famílias com atrasos entre 2 e 4,5 anos.
Segundo o levantamento oficial, o estoque de inadimplência registrado nos birôs somava R$ 592 bilhões em agosto de 2026 (dívidas com até cinco anos de atraso), envolvendo 83,9 milhões de pessoas negativadas — 56% mulheres —, com média de quatro dívidas por pessoa e ticket médio de R$ 7 mil por pessoa. Cerca de 55% desse estoque é de dívidas não bancárias (água, luz, telefonia e varejo) e 20% refere-se especificamente a serviços de água, luz e energia.
O mecanismo previsto é a compra em leilão de carteiras com valor original de até R$ 10 mil por dívida, contadas a partir de 25 de setembro de 2026. O governo admite que, na prática, a renegociação deverá ser parcial: a Fazenda estima R$ 75 bilhões efetivamente renegociados e até 15 milhões de beneficiários, com o processo de leilões iniciando em 2026 e desembolso concentrado em 2027. O impacto fiscal máximo informado é de R$ 15 bilhões, sujeito às regras fiscais vigentes.
Além do ajuste técnico, o anúncio incluiu medidas sobre o mercado de apostas: o Executivo vai editar uma MP proibindo cassinos online e casas de apostas, e enviou ao Congresso um projeto que endurece regras e tipifica crimes relacionados ao setor. A iniciativa retoma trechos de medidas anteriores (Desenrola 1.0 e 2.0), que já haviam usado instrumentos como autorizações para saque do FGTS e restrições administrativas a devedores.
A novidade política e econômica é dupla: ao oferecer alívio real a famílias endividadas, o governo amplia sua agenda social, mas também assume custo público e pressiona as contas. A operação — compra de risco privado com recursos públicos — acende alerta fiscal e coloca em debate a eficiência do desenho, a seleção de beneficiários e o risco de incentivo à inadimplência. Resta ao Executivo demonstrar transparência nos leilões e critérios claros para evitar que a medida comprometa a disciplina orçamentária sem resultados duradouros.