A cientista política Tathiana Chicarino lembra o que a experiência mostra: o diploma universitário continua sendo um ativo relevante para quem busca estabilidade e mobilidade social, mas sua capacidade de garantir saltos definitivos diminuiu. Em outras palavras, ter formação não é sinônimo automático de ascensão — mas aumenta a proteção contra a queda de posição socioeconômica.
O fator disruptivo, na avaliação da professora da FESPSP, é a transformação do mundo do trabalho pela digitalização. Parte do emprego formal foi 'plataformizado': entregas, transporte por aplicativo e venda direta em plataformas passaram a compor arranjos híbridos de renda. Paralelamente, a produção de conteúdo digital alimenta expectativas de enriquecimento rápidas, mas é uma trajetória restrita a poucos vencedores, o que distorce a percepção pública sobre as chances reais de mobilidade.
As redes sociais reforçam esse deslocamento simbólico: a exposição contínua à rotina e ao consumo alheio reduz a distância percebida entre o que se tem e o que se deseja, alimentando demandas por bens e experiências que a renda média não acompanha. Há, ainda, implicações eleitorais e sociais: Chicarino destaca que mulheres tendem a valorizar políticas públicas — um lembrete de que mudança nas formas de trabalho e de consumo recalibram prioridades do eleitorado e a pressão por serviços públicos.
Do ponto de vista da política econômica, o cenário impõe várias responsabilidades: investimentos eficientes em qualificação, regulação das plataformas para reduzir precarização e redesenho de mecanismos de proteção social mais flexíveis. Ignorar essas mudanças custa caro — aumenta a desigualdade, complica a integração produtiva e expõe governos a um desgaste político, caso a resposta não combine disciplina fiscal com medidas que produzam impacto real na vida das pessoas.