Os dados mais recentes mostram que a Dívida Bruta do Governo Geral subiu para 81,1% do Produto Interno Bruto, o equivalente a aproximadamente R$ 10,6 trilhões — o maior patamar em cinco anos e um nível que não era visto desde maio de 2021. O salto reforça um quadro de deterioração fiscal que combina maior endividamento e elevada pressão sobre as contas públicas. Em termos práticos, o país chega a um período pré-eleitoral com uma alavanca fiscal mais comprimida, justamente no momento em que decisões de mercado e de consumo exigiriam sinais claros de estabilidade.
A comentarista Rita Mundim relacionou esse patamar à volta de indicadores que lembram a fase mais aguda da pandemia: a geração de empregos em maio teve o pior desempenho desde 2020 e o acumulado do ano até maio também ficou no nível mais baixo daquele período. Para ela, a retração na criação de postos de trabalho e a piora da precificação de riscos no mercado decorrem, em grande parte, da desconfiança sobre o modelo econômico adotado pelo governo. Mundim cita também episódios políticos que afetaram a percepção externa, como o choque provocado pela ligação entre Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, que teria levado a retiradas de recursos da B3.
Além do aumento da dívida, a avaliação técnica aponta para um custo de serviço da dívida elevado: nos últimos 12 meses o pagamento de juros alcançou R$ 1,111 trilhão, enquanto o déficit nominal se aproximou de R$ 1,29 trilhão, números trazidos pela comentarista em sua análise. Paralelamente, o governo ampliou a carga tributária com a implementação de 27 novos impostos em quase quatro anos, segundo a mesma avaliação. Ao invés de priorizar ajuste e sinalizar contenção, a estratégia fiscal recente mistura expansão de gastos e elevação de tributos — uma combinação que, na visão de analistas, transfere renda para o setor público sem melhoria equivalente em serviços e sem restaurar confiança.
Em ano eleitoral, essa opção tem custo político e econômico claro. A conclusão de que "o governo não paralisa o gasto porque quer vencer a eleição" traduz o risco de curto prazo: maior estímulo por vias fiscais em troca de deterioração estrutural das contas. Na prática, o quadro dificulta decisões de investimento e contratações, amplia o custo de capital e pressiona a base aliada por medidas que acomodem compromissos eleitorais. Do ponto de vista editorial, os números acendem um alerta sobre a necessidade de correção de rumo: manter o atual patamar de gasto e tributação pode exacerbar a perda de confiança e aumentar a probabilidade de uma crise mais profunda no futuro, cenário que exige respostas técnicas e políticas que ainda não apareceram de forma convincente.