O paradoxo é claro: indicadores como desemprego em níveis historicamente baixos e aumento da renda não se traduzem em avaliação positiva da economia. Levantamento do Instituto Nexus BTG mostra que 53% dos entrevistados consideram a situação econômica como ruim, sinalizando um descolamento entre estatística e experiência cotidiana.

Especialistas consultados atribuem o desencontro ao peso das dívidas no orçamento familiar. A analista citada no debate afirma que os números macro não movem a percepção do eleitorado; quem decide é o impacto no bolso. Dados da Confederação Nacional do Comércio apontam que, entre os trabalhadores que recebem até três salários mínimos, 30,5% da renda já está comprometida com dívidas, e 21,2% se consideram muito endividados.

Grande parcela dessas obrigações está ligada a gastos essenciais — gás, energia, alimentação e transporte — o que impede a formação de poupança ou investimento e elimina a sensação de progresso. Com quase 70% dos trabalhadores na faixa até três salários mínimos, o fenômeno tende a ser estrutural e afetar a maioria da população ativa.

Politicamente, o quadro importa: às vésperas da disputa presidencial, a percepção negativa amplia desgaste para o governo e dificulta a construção de uma narrativa de avanço econômico. A leitura dos dados aponta para necessidade de políticas voltadas à redução do endividamento e ao alívio do orçamento doméstico, sob pena de manter a insatisfação popular mesmo em terreno macroeconômico relativamente favorável.