Um levantamento da Tendências Consultoria revela que a renda das famílias disponível para consumo — após descontados gastos essenciais, pagamento de dívida e impostos — caiu ao menor patamar desde o início da série histórica, em 2011. Em fevereiro, o indicador ficou em 21%, contra 23% no mesmo mês de 2025, numa tendência de queda ao longo de 2025. Os picos de folga no orçamento haviam ocorrido em março de 2011 (27,2%) e em junho de 2020 (27%).

O encolhimento da renda disponível ocorre num contexto de endividamento recorde: a proporção de domicílios com dívidas subiu para 80,9% em abril, segundo a CNC, registrando quatro recordes seguidos. O comprometimento médio da renda com o serviço da dívida também bateu recorde, alcançando 29,7% em fevereiro, depois de 29,5% em janeiro, conforme dados do Banco Central. Esses números explicam porque o consumo doméstico, motor importante da economia, vem perdendo fôlego.

Do lado das causas, saltam os juros ainda elevados — apesar do último corte de 0,25 ponto do BC — e a piora na qualidade da carteira de crédito, que elevou a demanda por linhas emergenciais, mais caras e de prazos curtos. Analistas citados no levantamento apontam que a correção estrutural passa pela melhora das contas públicas: sem avanço fiscal, a redução sustentável da taxa de juros fica comprometida. Projeções da IFI citadas na discussão pública reforçam o risco de aumento da dívida pública nos próximos anos.

No campo das políticas públicas, o relançamento do Desenrola pelo Planalto entra como tentativa de mitigação — mas especialistas alertam para efeitos adversos. A possibilidade de uso de 20% do saldo do FGTS (ou R$ 1.000) para abater dívidas pode reduzir inadimplência no curto prazo, mas, segundo a Abrainc, desvia finalidade do fundo e pode afetar o mercado habitacional. Em suma, a medida alivia hoje, mas não resolve a fragilidade estrutural do orçamento das famílias nem elimina a necessidade de medidas fiscais e de crédito mais profundas — cenário que acende alerta político e econômico para 2026 e além.