O câmbio brasileiro entrou em um corredor de incerteza que tende a se aprofundar com a aproximação das eleições de 2026. Hoje, o real encontra sustentação em um dos maiores diferenciais de juros reais do mundo, o que continua atraindo fluxo para títulos domésticos. Mas essa vantagem não é eterna: a trajetória da política monetária americana e a própria disputa presidencial no país criam forças contrárias capazes de elevar a volatilidade cambial.

O mecanismo é simples e bem conhecido pelos investidores: taxas internas mais altas tornam os ativos em reais mais atraentes. Se, no entanto, o Federal Reserve indicar fim do ciclo de aperto ou o mercado passar a ver menor diferencial para os EUA, parte desse prêmio pode se reduzir. Ao mesmo tempo, a incerteza sobre a condução fiscal do próximo governo — composição da equipe econômica, controle de gastos e plano para a dívida — é um fator que pode reverter entrantes estrangeiros em momentos de tensão.

As pesquisas eleitorais já começaram a mexer nos preços. Movimentos recentes no chamado 'trade eleitoral' trouxeram capital externo, valorizando o real e impulsionando o Ibovespa: em 2 de setembro o dólar fechou perto de R$ 5,10 enquanto a Bolsa avançou mais de 3% após levantamento que mostrou disputa mais acirrada. Esses episódios ilustram como expectativas políticas são precificadas de forma rápida, mas também como a persistência da apreciação depende de sinais concretos sobre a política econômica futura.

Relatos de mercado e analistas consultados apontam um cenário misto: para alguns, como William Castro Alves (Avenue), o diferencial de juros ainda pesa a favor do real, mas a questão fiscal permanece como risco latente; Emerson Jr. (Convexa) ressalta que qualquer perspectiva de alternância tende a ser vista positivamente, desde que venha acompanhada de compromisso com as contas; André Valério (Inter) vê o câmbio próximo a um ponto de equilíbrio, porém considera improvável ver o dólar abaixo de R$ 5 sem melhora clara nas perspectivas fiscais. Essas posições convergem na ideia de que o resultado eleitoral é apenas o primeiro filtro: vem depois a conta das medidas.

A consequência política e econômica é direta: a próxima gestão terá de sinalizar com clareza se pretende preservar o ajuste fiscal e quais instrumentos usará, sob pena de enfrentar repiques de volatilidade e custo maior para financiamento. Para o Banco Central e para famílias e empresas, um câmbio mais volátil implica desafios na ancoragem inflacionária e no planejamento de custos em dólar. Em suma, até que se conheça a composição do novo governo e as pistas do Fed, o mercado tende a trabalhar com maior oscilação — e o preço do risco será medido em reais.